Partes
Neste momento eu passaria pela fechadura da porta se nela coubesse. Cada buraco nessa história me mata por ser grande demais para me oferecer soluções e pequeno demais para me ajudar na fuga. Entendo de felicidade, mas é grego em se tratando da nossa. Por cada passo que abrimos lado a lado e cada conversa torta que marcaram bilhetes, paredes e sons, me diga o que fazer agora. No desembaraço dos personagens e da trama me vejo rodando pelo palco sem saber a hora da fala nem do gesto. Perdida, correndo por lugares que não conheço, esperando por abraços que não confortam e vivendo uma vida em pedaços. Pedaços dele, do outro, daquele e de mim. Me diga como juntar as partes, preciso mais do que nunca de um inteiro.
A última leitura
Percebo o abraço de despedida em carne viva. Gritando por cada poro está meu desespero para que fique, me aperte e se jogue comigo nesse chão gelado que precisa de calor. Entendo que seus anseios são maiores que o brilho dos meus olhos e que seus olhos já não enxergam os meus anseios. Mas queria que seus sapatos não soubessem mais o caminho para fora desta casa. Entre cada linha torta dessa sua vida está uma certa por onde passeio. Nesse caso, entre perfeição, ortografia e lágrimas, retiro acentos e a pontuação já não faz mais sentido, só torna mais ofegante decifrar suas várias vontades e os meus tantos desejos.
Dias intermináveis
Ainda descubro o que me arranca dos dedos as palavras que rodam desconexas pelos diálogos e pensamentos nas situações mais conturbadas. Alguém tem me tirado os pés do chão, mas tem me colado ao solo logo em seguida. Estou exausta de tantos prós e contras, tantas lembranças de sorrisos e fracassos.
Concentração
A apatia está de volta na sua melhor forma. Olhos de vidro fosco e ouvidos tampados para qualquer movimentação. Dispensando agasalhos e conversas, os cafés também serão solitários. É a preferência de quem se rende ao relógio e aos próprios passos, sem desejar qualquer faísca de destino durante o dia.
Visita
A porta se abre e aí está você, meio desarrumado com cheiro de chuva a me olhar. Um tanto calado esperando que eu leia em seus olhos as palavras que você já não sabe pronunciar. Perdemos segundos estudando um ao outro como se nos preparássemos para o ataque. Sem ação, enquadrada no corredor, sei que o tapete vermelho sob seus pés não diz que é rei. Meu rei, mas sim divindade prestes a pecar, levando consigo minha pureza e rigidez.
Sobre realidade
Sem fantasias, sem suspiros. Nesse mundo já não vingam anjos nem demônios. Feito chão de terra seca onde não nasce planta nem água. Cansei do verbo acreditar. Não há meio mais seguro e infalível de se punir que deixar de acreditar. Mas o bom é que a punição também tem efeito nos outros. Os incansáveis sedutores baratos que cantam dias melhores e declaram sentimentos abstratos. Tantas palavras desperdiçadas até hoje e sorrisos sem jeito de canto de boca, tantas noites mal dormidas e lágrimas amargas. E no fim, é cada um por si e ninguém é por nós. A decepção é única e nunca compartilhada. Alguém sempre sai com a mala cheia de ar puro e planos enquanto o outro fica em meio a memórias e lamentações. Nada deveria tirar do juízo real, principalmente sentimentos entre pessoas que por natureza se destroem. É melhor ser cético que acreditar na beleza de algo tão abstrato e auto-destrutivo como o tal amor.
A cidade e o fim de tarde
Cai uma chuva fina lá fora com mais ar de cortina que de cena. As pessoas caminham lentas e encolhidas, denscrentes de algum amor ou apenas vazias de idéias. Os carros se alternam em cores, tamanhos e formas. Os pombos continuam pelas calçadas a picotar tudo o que encontram. A tarde vai se consumindo lentamente, sem grandes surpresas nem personagens principais, esperando calmamente pela noite, que melancólica colocará tudo e todos para dormir.
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