A noite e a dama
Tiro certeiro. Sem mais reflexões vagas ou postura ereta. Hoje a noite as luzes cegarão a todos. Os carros romperão a barreira do som. Os semáforos não housarão o vermelho. Seus saltos estarão mais firmes e martelarão o coração de quem estiver desatento. Com o gosto do pecado nos lábios, ela estará na sua melhor forma. Sua taça rebolará lenta com venenos. Não confunda beijos com promessas. Neles a noite se fundirá. Lentos e prazeros. Tudo começará inocente e pela manhã estará acabado assim como você.
Temporal
Assim seguem-se os dias. Mais escuros e caóticos. Sua voz penetra causando dor e narrando pesadelos. Suas palavras cortam afiadas e derramam o resto de vida que ainda me sobra. Vejo flores morrerem ao longo da estrada e nada posso fazer pra salvá-las. Tinta escura borra o céu que um dia foi decorado com estrelas e sonhos. A chuva ácida está prestes a cair e varrer essa terra que não é minha e muito menos sua. Estamos desabrigados à espera do mesmo temporal. Você vai me deixar morrer?
O fim da guerra
Finalmente a poeira começa a descer. Aparecem os primeiros feridos e tantos desabrigados. É o fim de uma batalha desnecessária. Não houve vencedor, apenas destruição e desespero. Os anjos choraram por dias o sangue das crianças inocentes. Os homens se ignoraram como semelhantes e destríram uns aos outros com satisfação. As mulheres viram seus filhos partirem antes delas e banharam salgado as vestes imundas. Algumas se armaram de coragem e partiram para o fim evidente. Assim foram dias e mais dias vermelhos e negros. Barulhos ensurdecedores e gritos. O terror em asas escuras e rondar esconderijos e pastos. Nada era seguro. Cada dia era um a menos para a decisão duvina. No fim resta tristeza e pouca esperança. Vidas alteradas e chão bruto para recomeçar. É preciso força e olhos cegos pra desconstruir o agora e construir o futuro.
Andarilho
De quantas linhas você precisa para compreender que sentimentos devem nascer e morrer, mas acima de tudo existir? Quantos versos você precisa ouvir pra compreender que amor não se encontra em toda esquina? Já gastei todo o meu repertório e você ainda não se deu conta do final do show. Querido, acorde antes que seja tarde. A cidade inteira está indo dormir e só resta você querendo algo mais essa noite. É melhor ter um pouco mais de pressa, o toque de recolher já foi dado e você segue errante pelas ruas vazias. Não estou nos caminhos por onde você passa, não vou mais seguí-lo também. Contiue andarilho, sem destino, sem casa nem calor. Mas não venha bater em minha porta quando tudo o que eu for capaz de sentir não passar de pena.
Entre papéis e poeira
Fragmentando o tempo encontro você sempre de mãos atadas. Sei que costuma enaltecer situações, fazer rodeios e falar de nós como se eu fosse a fera. Porém, nunca estive com lâminas afiadas escondidas nas vestes, muito pelo contrário, sempre estive de mãos vazias esperando que as suas se ocupassem em segurá-las. Por tanto tempo não adiantei um passo na esperança de que você desse dois. Segui os dias fazendo questão de que fosse como eu imaginava, com fundo de romance e continuação quando as luzes se acendessem. Moldei o momento várias vezes e ensaiamos algumas inclusive. Porém, era preciso que eu deixasse nítido o que seria mais bonito ocultar. Sem coragem líquida eu sou apenas parte do cenário da sua vida. Foi assim e tem sido assim. Os anos entraram e saíram e eu me vi sempre cercada de mitos que fugiram dos seus pensamentos. A maioria deles invasivos e ofensivos. Nunca me importei com essas qualidades estranhas que soam como mistério e maldade. Mais uma vez, não tenho ações prontas para nossa situação, armada quase sempre com os mesmos elementos: gargalhadas, sorrisos, bem-estar e nostalgia. Esperei que com nossas vidas menos unidas você teria coragem. Mas novamente vejo que o fardo sou eu quem carrega e que esse abismo é fatal demais para você. Eu apenas gosto do perigo e do novo. Você segue cauteloso e continua estático e malicioso ao agir e falar do nosso mundo. Eu não sou nada do que você supõe e você não pretende ser o que eu apenas suponho. Deixemos as palavras de lado e também os sonhos. Tudo fica no papel, numa grande pilha de papéis na gaveta que nunca encontram a hora da publicação.
Envelhecimento a jato
Os músculos pedem descanço, a cabeça se recusa a ficar erguida. Dias acabam e começam e eu não sei como passei por cada um deles. Uma vida em branco me consumindo e me reduzindo a máquina. Já sem baterias volto ao que sou, humana. Nada quero além de boas horas de sono e nada marcado na agenda. Já não me lembro a última vez que tive tempo de me olhar no espelho e sei que não estou mais como antes, devo ter envelhecido muitos anos em algumas semanas.
Arte com as cores da vida
Sinto a necessidade de colocar alguma coisa no papel. Quero rabiscar você em traços fortes e violentos. Atravessar tinta até rasgar a folha e espalhar sentimento por toda a mesa. Vou borrar suas angústias e pintar sorrisos e beijos. Colocar em tons vivos o que você deixou aos poucos morrer. Quero um quadro que escorra vida parede a fora. Quero você colorido com as minhas cores, com as feições que eu escolhi retratar. No final formaremos um arco-íris distorcido em nuances fortes e fracas, mas sempre ligadas. Nem que eu nos pinte com rostos desconhecidos, ao menos nossas mãos estarão juntas.
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