Sorriso só

Eu decidi me deitar sozinha. Decidi não fazer mais duas xícaras de café, não colocar dois pratos na mesa e nem me preocupar em apertar a pasta de dente do jeito correto. Me sinto bem e isso me custou noites em claro. Agora tenho um travesseiro como bom amante e seu lugar na cama já perdeu a forma. Os dias passaram, suas coisas saíram do lugar, mas não foram para a gaveta. Tudo está em um saco preto la fora. Logo o camihão vai recolher e eu nunca mais vou precisar te ver.

O silêncio

O silêncio que me atormenta também me conforta. Um lago calmo e espelhado que não se move, que nada espera. Basta uma pequena gota de chuva para movimentá-lo por inteiro e despertar a fúria em pequenas e grandes ondas geometricamente calculadas. O silêncio me rouba pensamentos, atrasa minhas ações e me faz reviver ansiedades passadas. O silêncio é bem vindo aqui e agora. Ele é amigo disfarçado, tende a me irritar, mas depois me acalma. Começa agitado, jogando idéias soltas e sentimentos existentes, depois vai retirando um a um, me mostrando uma calma intensa, um momento que aos poucos some, lento e calmo. O silêncio então passa a mão em meus cabelos e me coloca para dormir. Um longo sono negro, que só anseia por beijar a luz do próximo dia.

Um presente

Não existe nenhuma canção sobre ela. Nenhum grande poeta e nem mesmo o melhor músico é capaz de traduzir a leveza que ela usa para deslizar. Mulher talhada por Deus para deixar qualquer diabo de joelhos. Subliminar sorriso de garota enérgica com um olhar de perigo eminente. Uma aura de quem sonha se mistura com pensamentos céticos. Ela transparece não se importar com quem bate à sua porta, mas se encanta com uma singela gota que borra sua janela. É garota inocente com sabor de mulher ardente. Menina que reduz o sexo oposto a espectador quando pisca os olhos e cruza as pernas. Hipnotiza quando move os lábios e usa sempre um tom brincalhão que cai bem em qualquer cena. Ela tem o humor das nuvens, serena em alguns dias e em outros, raivosa a cuspir relâmpagos. Causa delírios de amor eterno e não costuma deixar pegadas quando a noite acaba. Tomei a liberdade de escrever sobre ela no momento em que a pequena me surpreendeu mais do que nunca. Suas delicadas mãos cobriram o rosto e finalmente a vi chorar. Como um oceano invadindo minha consciência. Vi o grande dragão aos poucos se vestir de anjo. Bela criatura frágil como porcelana a balançar na ponta da estante. Quem a pintou com cores quentes se encantou ao vê-la em tons tristes. Minha pequena flor com espinhos conheceu o amor e também o frio. Por mais que eu a tenha guardado em um globo de vidro com todo cuidado, ela conseguiu me dobrar. Doce pimenta, é egoísmo querer subestimá-la e me admira alguém deixá-la ir. Pescá-la é impossível. Ela é peixe tinhoso e esperto. É diamante escondido perversamente embaixo de rios, terras e pedras. A mais bela garota-mulher que encontrei nesta cidade morta. Siga seu caminho, boneca maliciosa. Continue dançando pelos corações dos tolos amantes. Não desperdice seus belos olhos esmeralda com quem teme a sua grandeza. Invada mais casas e fuja sem rastro, deixando apenas aquele perfume embriagador no ar, o mesmo que faz tantos por aí sonhar.

Ps.: Escrito por G.

Ossos em fogo

Aquele abraço tinha o ritmo dos tambores de tribos selvagens.
Uma força animal que anulava pensamentos e focava a jugular.
Os corações se rebelaram tentando ultrapassar costelas e carne para juntos morrer.
Um instante em chamas que deixou o passado em cinzas e iluminou o futuro.

Como viver

Você pode me dar quantos dias quiser que eu vou passar por todos eles. Eu tenho sempre razão e basta o tempo passar que todas as palavras fazem sentido. Não me arrependo de nada e assim sigo, esquecendo os maus e talvez suportando os bons. Gosto das coisas do meu jeito e do meu jeito vão ficar. Na minha lei eu sou obrigada a ser feliz, melhor ainda se for em silêncio. Ninguém precisa anunciar a alegria e muito menos a tristeza.

Não dessa vez

Sinceridade toma frente aos meus delírios para descrever uma situação já comum e ridícula a meu ver. Tenho dedicado tempo, muito do meu escasso tempo. Também me desdobrei em paciência, já que nunca foi meu forte abusar dela. Construí sorrisos e aqueci meus braços para receber alguém. Inventei alegrias e me encantei por conta própria quando tudo não tinha brilho algum. Encaixei dias no calendário que não existiam, atravessei cidades, noites e qualquer coisa que encurtasse distâncias o mais rápido possível. Sempre me escondendo dos maus e evitando os bons com medo de alguma afeição em meio a tanta carência. Vesti várias personagens vendo qual se encaixaria melhor na sua noite de gala. Servi os bons vinhos em sua taça. Dediquei a você a melhor música. Você não sorriu. Você não olhou. Você não desejou e nem mesmo agradeceu. Você estava mesmo certo ao afirmar que mulheres abandonam homens quando se sentem satisfeitas? Ou você é a mulher da história, ou eu estou jogando tudo pro alto contrariando totalmente a sua teoria. Afinal, satisfeita nunca estive, não estou e não quero estar. Não com você.

Doses de vida

Quando tudo parece escrito e nada se pode fazer contra, os pés saem do chão e um sorriso amedrontado cresce na face. Desligamos quem nos controla, caso exista um controle e vivemos o agora na sua maior intensidade. Sem culpa, sem medo, sem anseios e com muita força, sorrimos, bebemos e dançamos como se ninguém nos olhasse com olhos culposos. Em certos dias, ou noites assim, o calendário parece perder as folhas todas de uma vez, como se nos encaminhassemos para o fim do mundo com a velocidade de uma bala faminta por sangue. Sinto que num desses dias que ficaram no passado vivi anos de felicidade em minutos de companhia. Agradeço à esta pessoa pelo grau de vida que ela me ofereceu em garrafas e sorrisos. Neste dia as luzes se fizeram estrelas e os figurantes pareciam bailarinos encantadores. Nunca fui tão feliz e sem culpa, tão leve que nem me dei conta da hora de parar. Tanto que ainda não parei, saldo até hoje com o gosto ainda fresco o dia em que me perdi completamente e me embriaguei de sonhos. Agora entendo o quanto meus dias têm escapado pelo ralo, um a um, sem memórias, sorrisos e até mesmo lágrimas. Depois de conhecer o paraíso, me recuso a voltar para a Terra e flutuando vou ficar.