Doença
Seu egoísmo escorre pelas minhas veias. Feito doença, surgem os primeiros sintomas. Seu prazer em me ver no chão escorre salgado na minha face. Sua malícia ainda é a mesma, intercalando doces e venenos. Sem ação me vejo pequena, do tamanho exato do frasco em que você me aprisiona. Lutando contra sua loucura acabo encontrando a minha. Você é doença sem cura. O fim da minha humanidade.
Quanta gentileza
As palavras que me encantam saem dos meus própios pensamentos.
Mas não me agrada ser o cavalheiro e a dama da mesma história.
Os dias passam lentos e eu sigo moldando meu romance.
Me mando flores e me elogio todas as manhãs.
Enquanto isso você dorme e espera o café.
Logo você esperará por mim também.
Mas não me agrada ser o cavalheiro e a dama da mesma história.
Os dias passam lentos e eu sigo moldando meu romance.
Me mando flores e me elogio todas as manhãs.
Enquanto isso você dorme e espera o café.
Logo você esperará por mim também.
Memórias geladas
Vou juntando as poucas lembranças que ainda me restam. Cacos de sorrisos, brilhos dos olhares e qualquer vestígio de alguma felicidade. Você partiu dizendo que logo voltava. Deixou a porta aberta jurando que seu calor aqueceria minha casa enquanto estivesse fora. Grande engano nosso. Mais meu do que seu, com certeza. Hoje fui perceber que há séculos você se foi. Hoje fui sentir o frio que corre por esses corredores. Nada mais tem o seu cheiro. Não vejo mais fotos nem escuto aquelas músicas. Talvez porque eu mesma não encontro mais nada. Talvez porque você mesmo fez questão de carregar tudo. As dúvidas brotam e morrem em segundos. Na mesma velocidade deixo de pensar em tudo, esqueço de mim e enterro você.
A espera
Mais uma vez estou com as mãos no queixo diante da janela sem vidro.
Nada vejo ao longe.
Não escuto sua imagem.
Nem vejo sua voz.
Já troco sensações, esperando trocar também os sentimentos.
Nada vejo ao longe.
Não escuto sua imagem.
Nem vejo sua voz.
Já troco sensações, esperando trocar também os sentimentos.
Decisão final
Fim da linha.
Ou se joga abismo abaixo ou me encara de frente.
Qual das opções vai doer mais em você?
Em mim ja tanto faz, mas por orgulho estou aqui.
Quero te empurrar ou te abraçar.
Estou pronta pros dois extremos.
Ou se joga abismo abaixo ou me encara de frente.
Qual das opções vai doer mais em você?
Em mim ja tanto faz, mas por orgulho estou aqui.
Quero te empurrar ou te abraçar.
Estou pronta pros dois extremos.
O carvalho e a borboleta
Balançando na rede de suas lembranças ela pára pra olhar seus últimos quinze meses. No início era casulo feio e gosmento colado no tronco rígido. Lentamente se rendeu à metamorfose e com sofrimento se livrou da sua prisão particular. Passou a ser vistosa dama de cores e sonhos. Voava feliz sempre retornando ao mesmo lugar, o velho carvalho. Sentia um amor infinito por ele. Queria sempre impressioná-lo com sua dança, mostrar a ele sua mimosidade e arrancar alguma reação positiva. Religiosamente ela se empenhava em hipnotizá-lo, pois tinha medo de perdê-lo para outra que se colocasse em seu caminho. Ele não esboçava afeição pela graciosa, mas exigia a constancia de suas visitas. Como se ela desse a ele um show particular que o tirasse de sua seriedade por uma fração de segundos. Drasticamente ele sempre apagava as luzes sem aviso prévio, a expulsava sem explicações e dizia que queria um tempo só. Ela se sentia cortada e mal voava de volta pra casa, sempre pensando em qual teria sido o erro da vez. Para garantir a atenção do casca grossa ela se fez palhaça, feiticeira, sábia, boneca e qualquer coisa que parecesse entretê-lo mais. Mudou tanto em pouco tempo. Moveu mundos para satisfazê-lo. E ele nem a elogiou. Tudo mudou com o tempo, menos ele. Sua casca continuava dura, suas folhas se soltavam lentas e era infestado por insetos asquerosos. A dama no auge da sua beleza e juventude sentia falta da sombra do carvalho e ainda esperava que ele sorrisse pra ela algum dia. Espera inválida e pesarosa. Tudo que ela recebia era ingratidão. O egoísmo dele a sufocava e ela aguentava como podia, sem no fim poder mais. As cores da notável de outrora foram se esvaindo, suas antenas se encurtando e suas patas se fragilizando. Logo voar já não era um espetáculo e a viagem ao carvalho deixou de ser acolhedora. Ela estava cansada dos shows e dos truques, mais cansada ainda de como tudo acabava sempre. Foi então diminuindo as visitas, se conformando com seu fim evidente. Era a solidão que escurecia suas asas e também seu coração. Seu reinado psicodélico deu espaço a trevas. E o carvalho? Ele não se moveu como já era esperado. Ficou longe chorando por dentro o que ela transbordava por fora. Dias, semanas, meses. Ela juntou tudo numa sacola e partiu. Foi para outro mundo. Preferiu não mais olhar pra trás e hesitou até mesmo em se despedir.
Euforia solitária
A sincronia das bolhas que sobem desesperadas para docemente derramar da minha taça é um espetáculo perfeito. Lenta e saborosa a bebida vai banhando toda a mesa enquanto lava meus anseios. Tudo parece tão estático fora isso. Movimentos quase nulos. Tudo tão engraçado. Talvez eu tenha abusado das bolinhas coloridas ou é só emoção demais. Minha cabeça parece uma televisão com defeito. Barulho ensurdecedor, chuviscos e cores. É tudo que tenho hoje e sinto como se tivesse o mundo. Consciente de que preciso de um plano, começo a rabiscar guardanapos. É tarde e todos foram embora, mas a música ainda está boa e tenho que saborear tudo que não vivi em meses de guerra. Quando o sol raiar talvez eu esteja em casa. Seja deitada com meu pijama favorito ou vestida com a sua camisa. É só a minha forma de passar o tempo.
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