Samba no lago

Vou dançando a música certa com passos errados. Feito cisne, meio pato sigo leve a bailar. Não me intimido com os curiosos nem me perco nos tropeços. Trançadas vagarosas e cheias de graça trazem a tona esse meu samba sem raiz, que tímido, vai levantando poeira no coração de quem assiste.

Conversando sobre o conversar

Entendo que a vida em cinza tem seus efeitos colaterais. Eu gosto do meu chá a luz de janelas e gosto do quase sono a base de buzinas inquetas. Mas ando refletindo mais sobre o meu cotidiano. Ponderando condutas e colocando as manias na mesa, ja que assim prefiro dizer. Descubro nisso tudo mais sobre o que sou. Algo que me soa engraçado a primeira vista. Digo de passagem que adoro descobrir coisas novas sobre o meu eu, quase uma terceira pessoa quando colocada nessa situação de exploração. É uma externalização que me diverte bastante e rende noites acordadas e sabores mais fortes às refeições. O caso em questão trata das minhas conversas com as pessoas em geral. Eu que sempre fui satisfeita com a minha condição mundo da lua sinto falta de estar com os pés no chão às vezes. Nunca fui de sorrisos desnecessários ou palavras frouxas, que escapam da boca sem importar o conteúdo ou o receptor. Continuo assim. Fria como muitos dizem, Alheia como outros preferem e normal como eu entendo. O contato ou uma conversa prolongada ainda me assustam. Com mais de duas pessoas ao mesmo tempo então! Deus me livre! Acho complexa a interação em si. Não sei se devo olhar diretamente nos olhos, se posso ou não piscar, se passar os olhos pela boca é indevido, se olhar pros lados pareceria desdenho, se desistir quando está chato explicitamente faria de mim uma pessoa medonha e por aí vai. Não sei. Somam-se perguntas e risos internos quando estou no meio de um diálogo. É minha diversão favorita, quando estou disposta a olhar o lado bom disso tudo, claro! Por que por outro lado uma simples conversa me deixa tonta. São possibilidades demais, reações físicas demais e informações úteis de menos. Engraçado como consigo me externalizar aos meus olhos, mas não em público. Mas gosto tanto disso tudo, porque quando começo a pensar na hora do ato, vejo as coisas acontecendo em camera lenta. Olhos se movendo dengosos,língua golpeando o céu da boca, mãos a se esfregar. É tudo tão bonito que me perco no assunto e fico por admirar apenas. Por fim não sei o que falei nem o que ouvi e dou início à minha fuga desajeita de cena. É o que acontece dia após dia. Uma conversa pra mim é quase um filme, com cenas fortes, imagens grandes e palavras, muitas já surradas, outras novas e fascinantes. Como todo filme, as vezes gosto, as vezes não. Será que mais alguém nesse mundo encontra tanta euforia num diálogo? Acredito que não. Mas volto ao início deste texto, mais especificamente quando falei da falta que sinto de estar mais perto do chão. As vezes cansa toda essa observação constante. É estranho pensar e ver as coisas tão diferente da maioria e com tanta força.O meu "jeito desajeitado" como acaba parecendo me incomoda um pouco. Minha diversão poderia se estender aos outros. É chato brincar sozinha. Enfim... Basta. Já analisei demais e já cansei de falar sobre. Ainda bem que escrever é sempre um monólogo, assim consigo manter o foco e a paciência.

Inimigos a meios lençóis

Ele vive para ostentar suas armas. Com seu sorriso de ponta cabeça, quer me mostrar alegria. Um sorriso cerrado, com mais aura de raiva que de ternura. Insiste em explicar que o tempo é maior que eu, assim como qualquer coisa que se coloque na sua frente. Ressalta arquivos mortos e parte para a guerra. Ele com sua artilharia imponente e eu com minhas palvras embaixo do braço. Não vou levantar bandeira branca, nem vai brotar nele um sentimento de misericórdia. Então que venham ventos negros. No fim veremos de quem é a maior força: A sua para destruir ou a minha para reconstruir? Garanto que estarei em pé muito antes de você.

A travessia

Parada em frente à porta não consigo tocar na maçaneta. Fitá-la é como fogo ardente que gela meu coração em contrapartida. Num arrepio que começa na cabeça e se espalha como seiva até os dedos, me vejo tomada por uma ansiedade nada comum. Seu casaco ainda pendurado na entrada me faz acreditar que ele ainda está quente. Mas não ouso mais que supor. Lá fora a luz brilha forte, mas assusta pela beleza. Ela destemida perfura vãos na madeira e se joga no chão ao meu lado em fragmentos brilhantes e sutis. Talvez seja um sinal de que tudo fica bem do outro lado.

De mala pronta

Alienação opcional é o que escolhi por uns tempos. Trabalhar sem pensar no fim de semana. Dormir sem pensar no sia seguinte. Sair de casa sem pensar na volta. Levo o mundo no bolso e deixo as lembranças em cima da mesa. Na mala não cabem sorrisos alheios. Só os meus.

Ressaca de carnaval

Finalmente cornetas se calam, bailarinos descansam, serpentinas se entulham pelo chão e as ruas voltam ao vazio cotidiano. A ressaca da alegria de muitos ainda é a festa da tristeza de outros. Pierrot não acha graça no Carnaval. O interessante é que muitos ainda zombam do coitado se fantasiando com suas lamentações. Talvez apenas o Pierrot entende o que é ter lágrimas amargas e facas afiadas ao invés de sorrisos estampados e confetes em mãos. Lágrimas encombrindo o passado e facas para matar o que dele vier assombrar. Sigo despedindo da folia, tirando meu bloco da rua. A festa acabou antes mesmo de começar. Mas eu não tenho pressa, meu carnaval é mais animado fora de época.

O interrogatório

Os dias somam-se às minhas perguntas. Já nem sei se vivo mais dias ou se faço mais perguntas. Investigações minuciosas que parecem querer arrancar de mim a todo custo a verdade. Mas eu não sei qual verdade. A luz forte balançando sobre nossas cabeças. Você me interroga e eu te devolvo o ponto. Deixo tudo na narrativa e compartilho a minha loucura com você. É como um virus, caro amigo. Começa lento. Algumas dúvidas. Pensamentos frouxos que você nem sabe por onde escorregaram. E por fim, a paranóia. Esses questionamentos não vão te levar ao dia do crime. Você não sabe aonde quer chegar por isso não sabe por onde começar. Tão simples. Tão doce. Tudo não se passou apenas em uma noite. Vasculhe mais, encontre o calendário. Nele marquei cada singelo dia que passou por você despercebido. Os mesmos dias que me arrancaram lágrimas, sonhos e palavras.