Noite sem voz
Desconfiado ele pensava. Sob a chuva fina e congelante ele ponderava. Já não ligava para o filete de água que escorria pela testa. Já não fazia questão de saber se o céu só estava escuro por causa do tempo de luto ou se estava realmente cedo demais para o sol. Não queria se atrever a olhar as horas. Ele buscava qualquer forma de diluir o sal das espaçosas lágrimas com a chuva, mas parecia impossível. A chuva varria a rua, quase silenciosa, como se apenas não quisesse deixá-lo sozinho. E ele ignorava sua presença. Ignorava qualquer possibilidade de sedução. Pouco importava a dança da água que caia ou a forma como acariciava suas costas. Ele estava apático, vivendo aquele como se fosse o último dia da sua existência. Concentrado em não se concentrar. Fadado ao conformismo. Não passava de um homem vestido de menino olhando sem focar a grama brilhante onde seus pés se acomodaram por horas. Ele esperava. Esperava pelo fim da tempestade. Esperava que não fosse verdade. Esperava que pudesse conviver. Esperava que pudesse esquecer. Amansado pelo cansaço ele admitiu que conversar com o pai nunca tinha sido tão difícil em toda sua vida. Simplesmente porque dessa vez não passou de um monólogo. Inevitavelmente a primeira de muitas vezes em que falaria sem resposta.
E quem não faz isso?
Eu conheço as suas fraquezas.
Eu ornamento os seus desejos.
Destruição angelical.
Alegria pessoal.
Eu ornamento os seus desejos.
Destruição angelical.
Alegria pessoal.
Escrevendo o segundo.
Efeitos estimulantes e descargas de obviedades se somam numa contradição constante resultando num tédio sem começo nem fim. Acho isso engraçado, mas não muito fácil de entender. Então não queiram que eu me explique bem. Me sobra escrever com ar de confusão mental e satisfação sensorial. Provavelmente o objetivo subjetivo, se é que me entendem, é só registrar um momento peculiar de um dia tão pacato. Então que assim seja.
Pra não dizer que não falo de mim
Deixem as capas para os heróis.
Deixem os discursos para os confiantes.
Eu não tenho com o que aparecer.
Nem preciso de uma estátua no meio de uma praça.
Sou a vida na sua simplicidade.
Não quero ser lembrada.
Ser pendurada na parede ou viver de boca em boca.
Quero mais é descanso...
Quero mais é viver e morrer.
Morrer apenas.
Deixem os discursos para os confiantes.
Eu não tenho com o que aparecer.
Nem preciso de uma estátua no meio de uma praça.
Sou a vida na sua simplicidade.
Não quero ser lembrada.
Ser pendurada na parede ou viver de boca em boca.
Quero mais é descanso...
Quero mais é viver e morrer.
Morrer apenas.
Companhia
Traz mais uma cadeira
Senta que o teto é firme
Nenhum dilúvio derruba a gente
Enquanto isso solta seu verbo
Fala da vida na gota de chuva
Que eu te conto um pouco do mundo
Um pouco do mundo
Um pouco de tudo
Senta que o teto é firme
Nenhum dilúvio derruba a gente
Enquanto isso solta seu verbo
Fala da vida na gota de chuva
Que eu te conto um pouco do mundo
Um pouco do mundo
Um pouco de tudo
Rascunho
Naquele canto tem espaço sobrando.
Naquele sonho tem alguém faltando.
Sinto falta de alguma coisa.
Alguma coisa sem nome...
Alguma coisa que eu quero tanto...
Alguma coisa que um dia se chamará você.
Naquele sonho tem alguém faltando.
Sinto falta de alguma coisa.
Alguma coisa sem nome...
Alguma coisa que eu quero tanto...
Alguma coisa que um dia se chamará você.
Fim da chuva
Longe vai o som dos seus sapatos no asfalto molhado.
Sente a brisa que o tempo vem trazendo.
Não é boa hora para ir embora.
Volta com o sol.
Fica mais um pouco.
Que eu te faço um chá.
Te trago um calor inventado.
Num cobertor de amor.
Sente a brisa que o tempo vem trazendo.
Não é boa hora para ir embora.
Volta com o sol.
Fica mais um pouco.
Que eu te faço um chá.
Te trago um calor inventado.
Num cobertor de amor.
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